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A evolução
do pensamento provocada pela tecno-ciência elevou a reflexão, alargou a consciência
de uma maneira demasiada desavisada, acabou por encontrar as sociedades ricas
em recursos e alienadas na sua forma de ver os horizontes. O mundo que parecia
existir nos confins da terra com o infinito chegou para mais perto e a gente
ficou sem saber o que fazer, porque até então talvez fosse para ali que mandaríamos
aqueles que eram maus e que insistiam em nos fazerem sofrer, e no espaço etéreo
que está acima das nossas cabeças e dos arranha-céus quase que babélicos, seria
o lugar daqueles que durante a vida nos teriam amado e feito as coisas mais
interessantes: atos de “caridade”, como compaixão dos incautos e miseráveis desafortunados
pobres e débeis, que por perversão de um gen do mal nasceram diferentes dos
bons.
Com
o fim do mistério, o amor que dilacerava corações apaixonados tornou-se explicável
e alquímico. Não há paixão, há química, pele e quem sabe uma molécula a mais de
serotonina. A dor não tem mais espaço. Sofrimento é coisa de masoquistas. Para quê sofrer se no fim não há recompensas?
A ingenuidade
de Dom Quixote, que imaginava um amor possível e real, era a ingenuidade de
todos, que ainda choravam quando olhavam as estrelas e mesmo sem saber por que
sentiam saudades do um infinito, que consolava suas almas sensíveis.
A perda
do mistério levou consigo também a virgindade das mentes castas, que contavam
com olhos úmidos de emoção e de um místico de lascívia, como era doce viver na
brancura da pureza e preservado do escarlate do pecado e do contato com os
pecadores. O mistério que não existe mais também fez desaparecer o Deus bom com
os bons e castigador dos maus. O mistério pelo menos mantinha princípios e
finais, hoje, não há mais limites, não se sabe mais onde as coisas começam e aonde
e como vão terminar. A vida que valia tanto porque era um dom, hoje pode ser
criada em laboratórios.
O mistério
matou a cegonha e com ela muitos bebês, que inesperadamente apareciam nas famílias.
O fim do mistério abriu de par em par as portas para a morte, que já não é assim
tão terrível, já que o tempo de existência da matéria tem validade, inclusive
se pode decidir até quando se quer viver.
O
sumiço do mistério poupou Deus de tantos incômodos, principalmente daquele da
vigilância cerrada contra o demônio para que não possuísse o espírito dos imaculados, concebidos no pecado original,
mas que com um toque de sorte, adquiriram um selo PO(Puros por Origem), porque
suas famílias eram formadas por pessoas de uma fé sólida numa religião.
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Sem
mistério Deus deixa de ser de Adão e se torna de Jesus Cristo. O fim do mistério
transformou o ensanguentado e assustador Jesus de Judas no Apaixonado Nazareno
de Maria Madalena. Sem o mistério, Jesus que era apenas de Nazaré, ganhou as
periferias do mundo, atravessou a rua e foi alojar-se no coração e no corpo
glorioso do povo, que se ilumina no sorriso de um Pobre Francisco.
A
morte do mistério levou consigo os cargos vitalícios, derrubou a mesa que
acomodava jogos de cartas marcadas, arrebentou a pseudo democracia das
instituições e revitalizou os verdadeiros carismas, que mesmo às vezes
manietados por ávidas ambições pessoais, vão abrindo brechas entre a incompetência
e o orgulho prepotente de castas e quadrilhas, que se comunam para manterem a
preço de sangue e desonras, o pútrido poder conquistado em troca de favores
escusos. As sete chaves que protegiam o mistério perderam sua função e por estupidez
ou por fragilidade também chegaram ao fim.
Daqui
para frente, quem alimentou gaiolas e consciências com o mistério do eu nasci
antes, conheci a origem, falo porque eu sei e já vivi bastante, talvez não saberá
mais o que fazer, pois sua arma, o mistério já não existe.
Me sinto muito feliz em dar esta notícia: NÃO
HÁ MAIS MISTÉRIO!
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