Brincando de Deus
Durante quase toda a semana passada os meios de comunicação noticiaram a decisão de casais homoafetivos de terem filhos, adotivos ou com a participação de uma das partes, num dos casos mais específicos, a fecundação in vitro. Em muitas reportagens, alguns jornalistas ou apresentadores chegaram afirmar: “resolvendo assim o problema de paternidade/maternidade do casal”. A minha preocupação vai exatamente nesta direção. Resolver o problema do casal, mas não levar em conta que há uma terceira vida neste intricado de coisas e de “problemas”. Há uma criança, adotada ou gerada, que precisará viver nesta situação. O que se pensou em relação a ela? Não ouvi ninguém falar de como seria presumidamente a vida destas crianças, que terão escritos em suas certidões de nascimento uma dupla maternidade ou paternidade.
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Ficou-me martelando muito uma canção do meu tempo de adolescente, que hoje é tida como brega. A música o telefone chora, do cantor Marcio José. A música fala de um relacionamento hetero que terminou, mas que ficou uma filha. A um determinado momento do diálogo, quando ele pergunta à filha se ela vai à escola, ela responde que sim, e com uma voz questionadora ela diz que quem assina os boletins dos seus coleguinhas é o papai e o dela não, é a mamãe.
Note bem, ela tinha a mamãe e o papai e estava confusa com quem deveria assinar o seu boletim, fico imaginando como estará confusa a cabeça destas crianças que ao invés de um pai e uma mãe, terão dos pais ou duas mães. Que explicação lhes darão? Quando a mãe/pai cria um filho/a sozinho/o sempre têm uma história para contar, se amava: o papai/mamãe virou um anjo. Se o amor não era tão grande assim e existem mágoas na separação: ela/ela foi embora porque não prestava, mas têm uma história, linda ou não. O que vão falar os/as pais/mães homoafetivos/as? Que história contarão sobre o sexo oposto?
O que me assusta é que aos poucos estamos nos tornando deuses. Já decidimos quem deve ou não nascer. Estamos a um passo de decidirmos sobre se devem nascer mais homens ou mais mulheres, e agora decidimos que para resolvermos nossas opções sexuais geremos vidas, como se tratasse de um simples brinquedo, ou um instrumento terapêutico. Tenho problemas, não gosto do sexo oposto e desejo ter filhos a gente faz um. Não importa se ele terá dificuldades em entender o que a gente fez: importante é que eu ame a quem quiser e tenha um filho para parecer igual ao que é natural.
O meu susto maior é ver que aqueles reacionários de plantão, que estão à espreita de qualquer deslize dos padres, dos agentes de pastoral, dos políticos honestos não se manifestaram, assim com não o fizeram em relação às células troncos de fetos, em relação ao aborto, máquina de camisinha nas escolas públicas, contra a devassidão e imoralidade do Big Brother Brasil. E a ética? E a Bioética? As Igrejas? O Estatuto da Criança e do Adolescente? O que pensam sobre isso?
Os deuses continuam avançando e cada vez mais ousados, vidas estão sendo manipuladas, desejos pessoais estão suplantando o direito de viver com dignidade e o silêncio dos crentes, ensurdecido com o alto volume de suas preces não escuta e nem percebe a gravidade onde a vida se meteu.
Óvulos/espermatozóides compartilhados. E no caso de separação de quem será o/a filho/a? O ser humano sempre desejou ser Deus, aliás há um salmo que diz que somos deuses, mas tem gente que não leva a sério isso, ao invés de ser deus, está brincado de sê-lo. Deus não brinca. Quando realiza, realiza tudo bem feito e bom. Assim como quando na criação, criou o ser humano, homem e mulher o criou e viu que era muito bom.