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Os profetas, assim como as estrelas não morrem. Porque nada pode apagar a sua luz e nem calar a sua voz. Há exatamente 32 anos hoje, um dos maiores profetas que a Igreja Latino Americana conheceu, Dom Oscar Romero banhava a terra Ameríndia com seu sangue, que literalmente misturou-se com o Sangue de Jesus Cristo, o Libertador.
A violência dos injustos acaba por realizar gestos de profecia. Foi assim com o Mestre Jesus de Nazaré e é assim com aqueles que decidem fazer de suas vidas motivos de vida para outras vidas, que não tem voz e nem vez. Dom Oscar Romero, poder-se-ia dizer, é o Saulo latino-americano. De servidor silencioso dos grandes e poderosos, diante da morte e do sofrimento do seu povo de El Salvador, fez-se intrépido profeta, intérprete e mártir da Palavra Justiça.
Bem disse Jesus: “nenhum profeta morre no próprio leito”. Profetas de verdade não morrem descansando ou desfrutando das benesses que a sua condição aparentemente lhe faculta. O verdadeiro profeta morre no meio do seu povo, testemunhado com a vida o que sempre defendeu.
Após 32 anos sentimos saudades de verdadeiros profetas. Há tantos gritos, tantas lágrimas, tantas palavras vazias em nossas igrejas. Estamos fartos de frases construídas sem sentido. Não suportamos mais pastores que não são profetas e falsos profetas que forçosamente se fazem passar por pastores.
Os “talk-shows” melodramáticos não encantam e nem libertam. Agridem a inteligência e a paciência do povo que deseja tanto acreditar. Dom Romero morreu pelas mãos de políticos, fazendeiros, banqueiros, militares, todos interessados em manter a vida miserável do povo como estava. Caso outros Romeros surgissem em nosso meio, seriam assassinados pelos midiáticos e alucinados pregadores, que se utilizam da arte de enganar o povo prometendo prosperidade ou então um céu glorioso, no qual se entra com um simples fechar de olhos ou três quatro lágrimas derramadas e alguns desmaios paranóicos e histéricos.
Em tempos de travessia, de uma sociedade liquida falsamente intelectualizada e cibernética, os pastores deveriam ser mais inteligentes, mais ousados e mais evangélicos. A tranquilidade em que se encontram hoje os profetas do Século XXI, sem perseguição, sem ameaças é atestado inconteste da ignorância, arrogância e mordomia em que vivem.
Quem mata mauricinho-patricinhas engomados/as? Quem perde tempo com pastores que negociam a liberdade de suas ovelhas em troca de migalhas financeiras e “novilhas sagradas” para suas festinhas?
Tem algo errado na profecia? Por que os profetas nem são notados hoje?
Talvez porque a vida do povo não é nada mais que um detalhe irrelevante no jogo das aparências e dos subjetivismos. Somente os profetas de verdade não morrem, mesmo quando assassinados. Porque os falsos profetas já são mortos. São fantasias das mentes esquizofrênicas, que não se sentindo capazes de outra coisa, usam e abusam da fé do povo para se eternizarem na fugacidade de um holofote cruel e sem escrúpulos, que do mesmo jeito que os ilumina, os elimina sem dó e nem piedade.
Profetas como Dom Romero, Madre Teresa de Calcutá, Helder Câmara, Margarida, Chico Mendes e tantos outros, não morrem e não deixam em paz, aqueles que se atrevem devorar o rebanho. Não é por acaso que vira e mexe eles aparecem, como se fossem fantasmas, interrompendo a inércia da Igreja.
Engraçado, a Igreja dos olhos fechados e dos gritos estridentes não tem nenhum mártir. Por que será? Por que só na Igreja que luta pela libertação dos empobrecidos, os mais abandonados é que morrem profetas assassinados?
No dia em que comemoramos os 32 anos do testemunho profético de Dom Oscar Romero, seria muito bom nos questionarmos sobre o silêncio tão ensurdecedor daqueles que deveriam gritar contra tanta coisa ruim que se está fazendo com a vida que quer viver.
Que neste domingo, a gente se lembre de que o Corpo e Sangue de Cristo que tomaremos, há 32 anos se tornaram corpo e sangue do Profeta Oscar Romero.
Publicado in: http://www.pobresservos.org.br/?pg=noticia&id=1555
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